quinta-feira, 26 de abril de 2012

CAXIAS



por Wibson Carvalho

A história de Caxias começa, no século XVII, com o Movimento de Entradas e Bandeiras ao interior maranhense, para o reconhecimento e ocupação das terras às margens do Rio Itapecuru, durante a invasão francesa no Maranhão, principalmente, com o trabalho valoroso dos missionários religiosos em busca de almas para a fé cristã.

  O local onde se acha situada a bela cidade de Caxias foi, primitivamente, um agregado de grandes aldeias dos índios Timbiras e Gamelas que conviviam pacificamente com os franceses. Porém, com a expulsão dos franceses do Maranhão, em 1615, os portugueses reduziram tais aldeias à condição de subjugadas e venderam suas populações, como escravos, ao povo de São Luís.   
   
 Várias denominações foram impostas ao lugar, dentre as quais: Guanaré - denominação indígena -, São José das Aldeias Altas, Freguesia das Aldeias Altas, Arraial das Aldeias Altas, Vila de Caxias e, finalmente, através da Lei Provincial, número 24, datada de 05 de julho de 1836, fora elevado à categoria de cidade com a denominação de Caxias. É bom lembrar que, ao contrário do que muita gente pensa, o nome Caxias não se atribui a Luís Alves de Lima e Silva, patrono do Exército Brasileiro. Ele, sim, recebeu o título Barão de Caxias, por ter sufocado a maior revolução social existente no Estado do Maranhão: a Balaiada. A cidade de Caxias foi palco da última batalha do movimento. Posteriormente, já em terras do Rio de Janeiro, o Barão de Caxias foi condecorado, novamente, com o título de Duque de Caxias.

Geralmente quando os portugueses criavam, num lugar, uma Vila, mudavam-lhe o nome, às vezes criando uma homônima do Reino nas Colônias. Inicialmente, a grafia “Cachias” viera de Portugal, que se refere a uma excelente Quinta Real que existia nos arredores de Lisboa perto de Oeiras (Portugal) outra bonita quinta do Márquez de Pombal, que era também residência real. Nessa área existia uma estação de caminho de ferro de Cascaes, onde cascaes é lugar que tem uma estação balneária, com água excelente e caldas térmicas muito procuradas para o tratamento de paralisias e reumatismo.

Situada na meso-região do leste maranhense e na micro-região do Itapecuru, Caxias tem uma área de 5.313.10 Km² dentre os 333.365,00 Km² do Estado e está a 365 quilômetros da capital do Maranhão, São Luis, e uma população de, aproximadamente, 156 mil habitantes. Geograficamente, em relação ao território nacional, o município de Caxias está localizado na região Nordeste do Brasil, Oeste do Norte Brasileiro e a Leste do Estado do Maranhão.

Delimitada, a atual área do município equivale somente a 45,45% da área original de 11.691 Km², antes das emancipações de Timon, Aldeias Altas, Coelho Neto, Codó, São João do Sóter. É limitada; ao norte pelos municípios de Codó, Aldeias Altas e Coelho Neto; ao sul pelos municípios de São João do Sóter, Governador Eugênio Barros, Parnarama, Matões, e Timon; ao leste pelo Estado do Piauí; a oeste pelos municípios de Buriti Bravo e Gonçalves Dias.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Canto ao Exílio em Caxias


 Em minha cidade havia palmeiras e canto de sabiás
                                        Nela, exalava o perfume dos jardins urbanos
Dela, se ouvia a linguagem singela do cotidiano
Com a minha cidade crescia a romântica pregação dos poetas

A inimizade humana passava por sobre ela
em nuvens sob eólica turbulência rumo a outras plagas,
para se derramar noutros cenários prenhes de social ganância

A ela, em minha infância, ouvi sinfonias nas horas iniciais
de um futuro desenhado com cores de abandono
Agora, que árvore dará abrigo a outros pássaros canoros,
para entoarem um canto de saudade?

Mas,

Sou um kármico pertencimento humano a ti
torrão exilado
quero para sempre te pertencer
grão de areia no teu chão sob um sol cáustico
barro escondido nas paredes da construção de tua eternidade
A ti
eis o que sou
Em ti
eis onde estou

E

quando a minha matéria inválida tombar

obediente à natureza cumprida

e imergir no teu barro...

Estórias de liberdade

serão tecidas sobre o ser

que não mais está cíclico ao meio...


Pois,


livre é o ser sem estar

e sido em sendo o verbo, ainda.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Essas mulheres extraordinárias...


Ana Luiza Almeida Ferro

“Ó abre alas/Que eu quero passar/Ó abre alas/Que eu quero passar/Eu sou da Lira/Não posso negar/[...]/Rosa de Ouro/É que vai ganhar”. O Carnaval se foi, e com ele o Dia Internacional da Mulher, mas essa marcha do longínquo ano de 1899, a primeira carnavalesca, como tantos outros tesouros da música brasileira, continua a ecoar pelo coração dos eternos foliões. Mais do que isso, fruto do talento de uma mulher à frente de seu tempo, traduz o próprio esforço em prol da valorização do papel feminino na sociedade brasileira e da necessidade de que novos caminhos sejam abertos ou facilitados ao seu exercício. A mulher continua a pedir passagem para mostrar o seu valor. A autora dessa marcha é um exemplo dessa luta pela afirmação dos direitos de gênero: pioneira, foi a primeira compositora popular do Brasil, a primeira pianista de choro e a primeira mulher a reger uma orquestra neste país. Deixou aproximadamente 2.000 composições em diversos gêneros, entre os quais figuram valsas, polcas, fados, serenatas, maxixes, quadrilhas e choros, e chegou a compor músicas para 77 peças teatrais. Ela não está sozinha nesse rol selecionado.

Ludovicense, veio ao mundo em 1825. Escreveu Ursula, considerado o primeiro romance produzido no Brasil, de autoria feminina, publicado em 1859, com a simples identificação de que sua autora era maranhense. Cultivadora das letras, numa época em que as mulheres que se aventuravam por esses domínios sofriam grande discriminação, teve seu nome e sua obra por muito tempo encobertos pelas areias do esquecimento.

Ela também nasceu em São Luís. Poeta, foi a primeira mulher no Maranhão a assumir o destacado cargo de Promotor Público na condição de concursada.

“Acordo de madrugada, lembro de tudo o que passamos juntos e começo a chorar. Minha filha fazia tudo para mim: cortava meu cabelo, fazia minha barba. Acho que ela não tinha ideia do quanto eu a amava.” O desabafo é do pedreiro Roberto da Costa Marcello, uma das centenas de parentes de vítimas da recente tragédia da serra fluminense, entrevistado por Veja na edição 2205. Sua filha morta tinha 16 anos.

Foi a primeira deputada do Brasil.

No último dia 3, aos 102 anos, morreu o “Anjo de Hamburgo”, viúva de Guimarães Rosa, que lhe dedicou a obra-prima Grande sertão: veredas. Homenageada nos museus do Holocausto de Jerusalém e Washington, foi funcionária do Itamaraty, servindo na cidade alemã de 1936 a 1942, quando contribuiu para a fuga de judeus do nazismo.

Da mesma estirpe do escritor José de Alencar, foi a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras e a primeira a receber o prestigiado Prêmio Camões, sendo tida, por muitos, como a maior escritora brasileira.

Nasceu no município de Caxias em 1910. Com formação em Estudos Sociais, integrou a primeira turma da Faculdade de Caxias. Da Ordem Franciscana, aprendeu que era mais importante dar do que receber. E a sua vida se tornou página obrigatória de qualquer livro que verse sobre a história da educação e dos colégios caxienses, como mestra do São José, do Coelho Neto, do Diocesano, da Escola Técnica e do Colégio Caxiense. De um tempo em que educação era sacerdócio, foi a primeira Diretora do Ginásio Coelho Neto, abrindo mão de honorários. Patroneia a Cadeira nº 09, da Academia Caxiense de Letras, abençoada por Safo.

Militar baiana, foi condecorada por D. Pedro em pessoa com a Imperial Ordem do Cruzeiro, no grau de Cavaleiro, por seus atos de bravura em combate na defesa da causa da Independência. Para se alistar sob o nome de Medeiros, cortou os cabelos e vestiu-se como um homem.

Ela construiu e manteve uma das mais respeitadas instituições filantrópicas do país e foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz, tendo recebido, após sua morte, o título de Serva de Deus, concedido pelo Papa João Paulo II.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a “Chiquinha Gonzaga”, Maria Firmina dos Reis, Aurora Correia Lima, uma jovem da serra fluminense, Carlota Pereira de Queirós, Aracy Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Filomena Machado Teixeira, carinhosamente chamada de “Filozinha” ou “Tia Filó”, Maria Quitéria de Jesus e Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, a Irmã Dulce, são peças selecionadas, mas não únicas, e nem raras, do imenso mosaico de extraordinárias mulheres brasileiras. Em tempo de tiranos que se agarram desesperadamente ao poder, seja pela força, seja pela demagogia, seja por ambas, de palhaços que viram políticos e políticos que viram palhaços, de ídolos que escondem os pés de barro, de big brothers e big sisters, de virtudes duvidosas, que são apresentados como os modernos heróis e heroínas do mundo desabridamente consumista e carente de valores em que vivemos, de prevalência do prazer e da estética sobre o saber e a ética, respectivamente, como observa o psicanalista francês Charles Melman, são estas e outras tantas mulheres, famosas ou anônimas, profissionais ou rainhas do lar, mães ou filhas, pioneiras ou musas, gênios ou pequenos talentos, guerreiras ou santas, as legítimas heroínas da sociedade brasileira, aquelas que verdadeiramente merecem o reconhecimento de público e crítica nos reality shows da História.

Abram alas, senhores, que elas querem passar...

Promotora de Justiça, Mestre e Doutora em Ciências Penais
e membro da Academia Caxiense de Letras
alaferro@uol.com.br